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Jornal Tribuna do Vale - 23/05/2018

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DIAS DAS MÃES

Mães esquecidas

Enquanto maioria das pessoas faz festa para homenagear as mães, muitas mulheres, idosas, abandonadas pela família, vivem esquecidas

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11 MAI 2018Por Da Redação20h06
Foto: Antônio Picolli

Neste domingo (13) comemora-se o Dia das Mães no Brasil, data oficializada a partir de um decreto presidencial de 1932, estabelecendo sua comemoração, anualmente, no segundo domingo do mês de maio. Para o comércio, é a segunda data mais importante do ano, depois do Natal, em que as vendas crescem, mercantilizando o que deveria ser um gesto singelo de amor familiar.

Enquanto se faz correria para comprar o presente que mais agrade as mães, nos esquecemos de que atrás de muros de penitenciárias, hospitais ou asilos existem o que chamamos de “mães esquecidas”, que vivem nesses locais o tempo que lhes resta de vida sem nunca receber o carinho de seus filhos ou outros parentes.

A Tribuna do Vale resolveu abordar o tema em reportagem especial por conta das comemorações do Dia das Mães, mas sem a intenção de demonizar a imagem de filhos ou outros familiares que eventualmente esquecem suas mães em entidades. Na medida do possível evitamos exposição de imagens ou nomes que possam constranger parentes e até a direção do Lar dos Idosos São Francisco de Assis, de Santo Antônio da Platina, administrado pela Sociedade São Vicente de Paulo.

A intenção da reportagem é levar a sociedade a uma reflexão. Despertar nas pessoas a necessidade de ajudar essas instituições, mas essencialmente, fazê-las encontrar um tempo para visitar, conversar com esses idosos, oferecendo-lhes uma oportunidade de expressar o que trazem em suas almas, a necessidade de partilhar seus sonhos, sofrimentos, saudades, esperanças... Sim, eles têm, e muito, esperanças! A maioria que ouvimos, faria qualquer coisa para voltar para casa, experimentar o gosto de dizer: “minha família... minha cama... minha casa!

O lar dos idosos platinense abriga 56 internos de idades e situações variadas. Desses, 24 são mulheres, boa parte delas trazendo no corpo e na alma sequelas de uma vida de abandono e sofrimento. Aquelas solteiras, que nunca tiveram filhos, esquecidas pelos parentes, fazem parte do grupo mais vulnerável e solitário.

Internação judicial

Enquanto a reportagem conversava com várias internas, uma funcionária, que alimentava uma idosa incapaz de fazê-lo sozinha, diz que vários dos moradores do asilo (homens e mulheres) estão internados no local por decisão da justiça. São os idosos, vítimas de filhos, netos ou outros parentes, alguns torturados, agredidos, outros, explorados por pessoas próximas que lhes tomam as aposentadorias ou as pequenas quantias que guardam na poupança.

O caso mais comum são os idosos, vítimas de parentes jovens, enganados ou forçados a tomar os chamados empréstimos consignados, uma forma de financiamento cujas parcelas são descontadas das aposentadorias. Muitos ficam sem ter o que receber por conta desses crimes praticados no seio das famílias.

Voltar pra casa

O desejo obsessivo de voltar para casa foi revelado por M.M.S., de 68 anos. uma das internas mais lúcidas que conversamos. Ela está no asilo há 14 meses, desde a morte do marido. O filho trabalha como viajante e fica a semana inteira fora. Ela tem vários outros parentes na cidade, inclusive alguns de poder aquisitivo relevante, mas ninguém se dispõe a cuidar dela. A única saída foi internar-se no Lar dos Idosos.

Ela conta que recebe a visita do único filho todos os fins de semana e que tem certeza que ele estará presente no dia das mães. Mas, para ela, isso não é suficiente. Ela quer voltar pra casa, embora admita ser muito bem cuidada no asilo, onde recebe medicação, alimento, um bom quarto para abrigar-se e muito carinho de funcionários e diretores. “Eu quero meu canto, minha casa! Aqui é bom, mas não se compara ao meu lar”, diz com uma ponta de esperança que o filho vai leva-la de volta.

O que é assustador e chamou atenção da reportagem é o numero de mulheres com idades entre 60 e 70 anos que já perderam seus pontos referenciais, como a própria idade, número de filhos e origem. Se transforam em pessoas dependentes, incapazes se sobreviverem sozinhas. Para algumas mães, o mundo exterior não existe mais. Coexistem dentro de si mesmas, sem perceber que é Dias das Mães, que tem filhos e famílias, que existe vida no planeta e que é possível esperar o amanhã, com a esperança de ser feliz. “Felicidade, o que é isso!”. Foi a frase ouvida pelo repórter, como último ato de uma peça marcada pela dor do abandono!  

 

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