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Jornal Tribuna do Vale - 23/06/2017

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Flávio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN.

HONDA, HONDA…

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13 JUN 2017Por Flávio Gomes18h19

RIO (que fiasco, putz) – Está esquentando demais essa história, e quando é assim… Bem, a imprensa inglesa já crava que em agosto será anunciado o rompimento da parceria entre McLaren e Honda, e que a equipe voltará a usar motores Mercedes a partir da temporada que vem.

Se isso acontecer, é justo dizer que o time de Woking está coberto de razão. Não se trata de um embate entre piores — o chassi que é ruim, ou o motor? Julgamentos técnicos à parte, há um fato indesmentível que é a total falta de confiabilidade dos motores, que quebram dia sim, dia não.

Diante desse quadro, não se pode sequer avaliar a qualidade do carro da McLaren. Ele mal anda. E quando anda, toma em reta uma luneta de 10, 20, 30 km/h de velocidade final em relação aos adversários. Comenta-se que as unidades de potência japonesas têm 80 HP a menos que as de Mercedes, Ferrari e Renault.

Os técnicos da Honda estão perdidos. Não sabem explicar por que as modificações que fazem nos motores não funcionam na pista. Nesse caso, o que fazer? Ficar esperando algum tipo de milagre? A ira da McLaren é compreensível. Não faz sentido investir milhões na construção de um carro que antes mesmo de sair da garagem já se sabe que terá um déficit de potência intransponível. É rasgar dinheiro, desperdiçar energia, perder tempo.

A grande pergunta é: o que acontece com a Honda? A fábrica revolucionou a F-1 nos anos 80 e 90 com motores espetaculares que fizeram de Williams e McLaren equipes imbatíveis. A tenacidade, o empenho, a dedicação, a precisão e a tecnologia dos japoneses eram objeto de admiração de todos na F-1.

Depois de um hiato de alguns anos fora da categoria, porém, a Honda resolveu ter equipe própria e fracassou redondamente – na metade da primeira década deste século. Quando saiu de novo, sua equipe foi comprada por Ross Brawn, e no ano seguinte, ganhou o título com motores Mercedes. Os alemães compraram o time imediatamente e hoje estão onde estão.

A volta, em 2015, foi saudada como uma possível redenção, de novo em parceria com a McLaren, quem sabe para reviver os gloriosos anos de Senna e Prost. Virou piada. Os motores são esculachados em público GP após GP, arranhando a imagem da montadora e levando seus engenheiros ao desespero.

Se perder a McLaren, a Honda ficará apenas com a Sauber em 2018. Isso se ficar. Porque um solene pé na bunda por falta de competência pode abalar estruturas (e pessoas) e levar a empresa a simplesmente tirar seu cavalinho da chuva. Ou, então, a arriscar a bala de prata solitária assumindo a Sauber como um todo, gastando os tubos para provar ao mundo do que é capaz. Sem a pressão natural de uma equipe grande, como a McLaren, talvez seja uma solução. Talvez funcione. Talvez não.

Antes de tomar qualquer decisão, seria de bom tom que os executivos da Honda ponderassem bem. A tentativa recente com equipe própria foi uma lástima. A rival Toyota tentou o mesmo entre 2002 e 2009, torrou zilhões de ienes em um programa de longo prazo e quando o prazo se mostrou longo demais, saiu com o rabinho entre as pernas. A pergunta que os japoneses devem se fazer é: vale a pena investir nisso? Gastar o que pode e o que não pode apenas para provar que não são uns incompetentes atrozes, correndo o risco de não provar nada?

Eu, se sou o dono da empresa, me mando rapidinho. O mar não está para peixe. Fico aqui com minhas motos e meus carros elétricos e um abraço para o gaiteiro. Se um dia a F-1 voltasse a ter motores mais simples e baratos, consideraria a possibilidade de tentar de novo. Nesse regulamento aí, as chances de tirar o pé da lama são muito pequenas.