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Jornal Tribuna do Vale - 08/12/2017

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Flávio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN.

O GRANDE CAMPEÃO

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02 AGO 2017Por Flávio Gomes17h49

BUDAPESTE (partindo) – Antes de qualquer coisa, que fique claro: não tenho nada a ver com o título, com o campeonato, com o sucesso de piloto e equipe, não estou me apropriando de nada.

Mas quero só contar uma historinha para justificar minha alegria com o título que Lucas di Grassi conquistou agora há pouco em Montreal, na Fórmula E. Alegria que também não tem nada a ver com patriotismo, nacionalidade do campeão, coisa que o valha. Absolutamente nada, vocês me conhecem.

A historinha começa lá em 2011, quando a FIA anunciou a criação do WEC, o novo formato Mundial de Endurance, junto com o ACO — que organiza as 24 Horas de Le Mans. Interlagos apareceu no calendário para o ano seguinte, o que para todos nós que gostamos dessa bagaça era uma grande notícia.

Nos meses que se seguiram, revelou-se que Emerson Fittipaldi seria o promotor das 6 Horas de São Paulo, o nome da corrida. Planos foram feitos, a expectativa foi aumentando, ficou todo mundo animado. Afinal, veríamos por aqui, simplesmente, as mais belas obras de engenharia sobre rodas daquele momento, os carros da Audi e da Toyota — além de todos os outros protótipos e GTs que amamos de paixão.

A prova seria em setembro de 2012. Em junho, eu tinha ido a Le Mans a convite dos meus amigos da Audi Tradition, que nada tinham a ver com a divisão de automobilismo da montadora alemã. Minha relação com esse setor de Ingolstadt já tinha algum tempo e fora iniciada graças ao meu DKW de corrida, o #96. Fiquei amigo de um cara em especial, o Peter, e foi dele que partiu o convite para ir a Sarthe.

Lá conheci mais gente da Audi, agora do setor de motorsport, passei dias ótimos na França, estreitei os laços com a equipe e com a empresa.

Poucos dias depois de voltar ao Brasil, recebi um telefonema da Alemanha. A prova de Interlagos estava confirmada e a Audi tivera a ideia de colocar um piloto brasileiro em um de seus carros, o R18 ultra, já que havia uma vaga para formar o trio com McNish e Kristensen. Não sabiam quem. Resolveram me consultar.

Fiz uma lista tríplice, depois de estudar alguns nomes e ponderar pontos positivos e negativos, dificuldades contratuais, experiência, carisma, talento, capacidade técnica e tudo mais. Essa avaliação resultou em alguns descartes de pilotos que inclusive haviam sido sugeridos pela Audi — reservo-me o direito de declinar suas identidades, senão é capaz de neguinho dizer que “Gomes vetou fulano”.

Meu preferido era João Paulo de Oliveira, por sua experiência com vários tipos de carros e pela carreira mais do que bem-sucedida no Japão. Os outros dois nomes que acabei indicando foram os de Max Wilson e Lucas di Grassi — que, na época, era piloto de testes da Pirelli e não estava disputando campeonato nenhum.

Em agosto, a Audi anunciou Lucas.

A partir daí, sua carreira decolou de vez, porque ele andou bem em Interlagos e acabou promovido a piloto oficial de Ingolstadt. Achei sensacional. Logo depois começou o desenvolvimento da Fórmula E e ele se atirou de cabeça no projeto, com toda sua inteligência, expertise, conhecimento técnico e antevisão do futuro.

O resto é história. A Audi foi uma das pioneiras da categoria e Lucas, que já estava lá e participava da gestação do campeonato, era o nome mais indicado para assumir um dos carros da equipe — além de ter sido fundamental na sua concepção, Lucas tinha feito toda sua trajetória em monopostos e não precisaria de muito tempo para se adaptar.

O título que conquistou hoje eleva Di Grassi a um panteão de pilotos brasileiros que se sagraram campeões em categorias de ponta como F-1, Indy, Mundial de Marcas, F-Nippon, F-3 Inglesa, F-3.000 — algumas perderam relevância, mas em certos momentos históricos tiveram enorme importância.

Ganhou com autoridade, cabeça no lugar, agressividade na medida certa, performance impecável. Só andou mal em Nova York, justo onde Buemi não correria, onde poderia descontar os pontos que o suíço tinha de vantagem até então. Mas o rival da Renault enfiou os pés pelas mãos neste fim de semana em Montreal, e Lucas aproveitou. Ontem, fez a pole e venceu. Buemi foi desclassificado. Hoje, administrou a diferença. Terminou em sétimo, com Sébastien se estrepando de todas as formas possíveis para terminar o ePrix do Canadá procurando um buraco onde pudesse se esconder por alguns meses.

Parabéns a Lucas, mereceu. Mereceu muito. Podia ter levado o título na primeira temporada, não fosse a desclassificação em Berlim. O mesmo na segunda, quando também perdeu uma vitória por desclassificação no México — em ambas, os problemas foram da equipe.

Desta vez, o brasileiro não deixou escapar. Foi um grande campeão. Na pista, no talento, com estratégia, capacidade, inteligência acima da média. A Audi tem de ser grata ao destino por seu nome ter feito parte daquela listinha tríplice de 2012. Foi ela que aproximou um piloto de enorme qualidade de uma equipe excepcional.

O casamento deu mais do que certo.