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Jornal Tribuna do Vale - 21/11/2017

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OS ECOS DE WITTENBERG

O Legado da Reforma Protestante 500 anos depois.

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27 OUT 2017Por Da Assessoria23h30

Quando a Reforma irrompeu em 31 de outubro de 1517 da mão de Martinho Lutero, a igreja não apenas representava, como hoje, a dimensão do religioso. Ela representava o corpo publico, dela fluíam as formas e maneiras como se organizava a vida aqui e agora. Por isso, quando a Reforma começou acontecer teve um impacto em absolutamente todas as dimensões da vida: desde os mosteiros ate os palácios, desde o campo ate a cidade, desde a religião ate a política, cultura, arte, jurisprudência, conceito do ser humano, cosmovisão etc. Tal foi a força da Reforma na historia que não é exagero colocá-la com uma das fontes da modernidade. Considerando isto, desde o ponto de vista religioso podemos destacar três aspectos centrais da Reforma Protestante:

A Reforma como um encontro com Deus: a Reforma não surgiu de um diagnostico da realidade social, política ou religiosa. Ela surgiu de um encontro com Deus: o monge Lutero e sua culpa alcançado pelo Deus de Graça. Aqui esta a gênese da Reforma. Por tanto, no centro da Reforma se localiza, não o perspicaz e temperamental Lutero, mas sim um homem quebrantado sob a grandeza da graça divina, um encontro pessoal com Deus, um redescobrimento de Deus. Foi esta experiência que abriu os olhos de Lutero para perceber a decadência da causa de Deus no mundo.

A Reforma como um encontro com o evangelho: a pedra angular de todos os movimentos de renovação e avivamento da obra cristã é o redescobrimento de verdades esquecidas das Escrituras. Depois do seu encontro com Deus a primeira coisa que Martinho Lutero percebe é que a Igreja como instituição, tinha adquirido a primazia sobre o evangelho. Também percebe que era uma igreja onde se evidenciava a primazia do misticismo sobre o evangelho. Quando Lutero compreende a justiça que se revela por fé e para a fé, pela primeira vez percebe a imperiosa necessidade de reformar a igreja devolvendo a primazia do evangelho sobre todas as coisas. Na dieta de Worms, em 1521, Lutero sintetiza isto dizendo a rei: minha consciência está cativa ao evangelho.

A Reforma como um reencontro com a soberania de Deus: o tema central da Reforma é a soberania de Deus. Para os reformadores, Deus é a fonte de toda existência e dispõe das suas criaturas como lhe praz. O celebre intelectual Voegelin costumava falar do “Deus implacável de Lutero e Calvino”. Os reformadores sintetizam esta verdade na máxima “Somente a Deus a Gloria”, querendo dizer que o cristão deverá, como toda a criação, se deleitar em Deus e viver para sua gloria como seu supremo objetivo.

Juntamente com sua significação religiosa, a Reforma também trouxe mudanças profundas que forjaram aquilo que depois viria ser chamado de modernidade e que pelo breve espaço quase que apenas as sumariamos. Vejamos alguns eventos que a Reforma propiciou:

A Reforma propiciou o enfraquecimento da igreja e o fortalecimento do Estado: com o enfraquecimento da ICAR como corpo publico esta começou a ser substituída pelo Estado. Juntamente, a religião começou a ser substituída pela política para finalmente acabar transformando a política numa religião. Para alguns o fortalecimento do Estado pode ser algo virtuoso, para outros uma tragédia. Vai depender desde que ponto de vista façamos um juízo de valor; mas foi a Reforma que catalisou a formação e o avanço do Estado Moderno.

A Reforma propiciou o surgimento de um homem novo: para os reformados, aqueles que se salvam são os predestinados. Estes descobrem seu propósito para qual foram criados: deleite em Deus e a Glória de Deus. Por isso submetem e transformam o mundo para a glória de Deus pelo trabalho infatigável, sistemático e disciplinado. Assim, a verdadeira fé é verificada e autenticada pelo sucesso da ação do crente.  Surge assim um homem diferente ao homem medieval, que não teme as mudanças, antes trabalha para suscitá-las, que age no mundo transformando-o e que o adéqua para um fim: a Gloria de Deus e a autenticação da sua predestinação. Desta ética surge a corrente filosófica do Pragmatismo. Quando com o passo do tempo a busca por eficácia se separou do aspecto religioso, ficou apenas aquela busca incessante do homem moderno por sucesso, o homem pragmático e de ação que adéqua o mundo pára seus próprios fins, tão característico do homem ocidental.

A Reforma propiciou o terreno adequado para o surgimento da democracia: os presbiterianos reformados estavam voltados para o governo representativo, os reformados congregacionalistas eram democracias religiosas e os calvinistas e puritanos ingleses praticavam o consenso e o pacto (covenant) como forma de organização social. Estas formas de organização religiosa forjaram o ambiente ideal para o surgimento da democracia moderna.

A Reforma propiciou a liberdade de consciência: Para Lutero, o cristão, liberado do pecado, de si mesmo, de toda coerção exterior, de todo dever baseado em leis e preceitos é inteiramente livre em sua consciência e não depende de nada exterior. Para o cristão sua fé é suficiente. Suas ações não são resultado da sua obediência, mas de uma vontade regenerada. Como fruto desta liberdade, Lutero conclui que: ninguém pode ser obrigado a crer contra sua consciência, ninguém pode mandar na alma, somente Deus; todos os cristãos são iguais para compreender a Palavra de Deus, para isso basta crer. Quando na modernidade este conceito se separa da sua matriz religiosa aparece o homem que se levanta como critério da sua própria certeza.

Em esta breve relação de consequências da Reforma, percebemos um movimento concêntrico: Deus mudando um homem para mudar a igreja que por sua vez mudará o mundo. É intrigante perceber que na historia da renovação da igreja Deus sempre usa este método. Em Josué 4.21-24 lemos que Deus disse: quando no futuro os vossos filhos perguntarem o que significam estas pedras? Respondereis: Israel passou em seco este Jordão. Na celebração de 500 anos da Reforma a melhor homenagem que podemos fazer é nos perguntar sobre o significado de tudo que aconteceu. Descobriremos quão semelhante era a igreja e o mundo que os nossos pais na fé quiseram renovar com a igreja e o mundo que temos hoje diante de nós. Então ficará a pergunta em nosso intimo: estamos a altura da clareza, coragem, ousadia, preparo dos que nos precederam na fé para empreender essa saga que tudo transforma? Deus queira que sim!

Soli Deo Gloria!

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